Hoje decidi falar-lhe sobre a habilidade de saber ouvir. Embora a maioria de nós tenha capacidade auditiva, a verdade é que nem sempre a usamos para escutar os outros. Saber ouvir torna-nos bons ouvintes e, isso, aporta-nos uma maior capacidade de influência e conexão com as outras pessoas.

Nos últimos dias, tive oportunidade de reparar em algumas situações muito curiosas que, me conduziram a algumas reflexões interessantes sobre as nossas interações com os outros, a empatia e as características de um bom ouvinte. Por isso, decidi partilhar essas histórias consigo.

 

As conversas que ouvi…

Na sexta-feira, a Cristina estava na padaria com a sua filha Mariana. A Mariana não parava de chorar enquanto contava à mãe que, estava triste porque a sua amiguinha Inês não tinha querido brincar com ela no intervalo da escola. No meio da fila da padaria, a mãe dizia-lhe “para lá com isso, senão não te deixo comer o bolo, (…) para com a choraminguice, porque quando chegares a casa da avó brincas com a prima Ana que é o mesmo…”. E, então, quanto mais a Cristina insistia no silêncio, mais a Mariana chorava!

Analogamente, ontem no café, também ouvi o Luís e o Miguel a conversarem. O Miguel estava a partilhar com o Luís as dificuldades pelas quais estava a passar na sua relação com a mulher: “É complicado, já não aguento as discussões e o mau humor (…) não sei o que fazer, a situação está difícil.” Enquanto o Miguel desabafava, o Luís abanava a perna na cadeira e ia dizendo: “Difícil?! Difícil não, pá (…) Oh! É simples as pessoas é que complicam!” E quanto mais o Luís desvalorizava a situação, mais o Miguel procurava demostrar a sua dificuldade!

Certamente que, estas conversas são semelhantes a tantas outras que ouvimos no nosso dia-a-dia. No entanto, possibilitam reflexões bastante curiosas. Por isso, quero desfiá-lo a pensar um pouco mais sobre isso! O que é que as duas conversas têm em comum? O que é que está a acontecer? Ou melhor o que é que parece não estar a acontecer em ambas as conversas?

 

O desafio da reflexão….

Recordando aqueles diálogos, desafio-o também a si a refletir agora um pouco mais. E, por essa razão, deixo aqui algumas interrogações.

Será que a Cristina estava conectada com o sentimento de tristeza da filha? Ou por instantes se colocou no lugar dela? Talvez a Cristina nem estivesse realmente a ouvir o que a filha dizia, não é? Talvez o foco da atenção dela estivesse noutro lugar?

E Luís será que estava disponível para o Miguel, e se ligou à vulnerabilidade da sua situação? Será que o estava a ouvir? Será que, em algum momento, se colocou na sua pele? Ou procurou perceber o ponto de vista do Miguel?

É provável que, nas conversas que vamos mantendo ao longo do dia, possamos, algumas vezes, estar mais focados naquilo que vamos dizer, do que no que o outro nos está a dizer. Pode acontecer também que, algumas vezes estejamos a tecer julgamentos enquanto o outro fala. E, noutras vezes, talvez estejamos a preparar mentalmente a resposta que vamos dar.

Ora, será que nessas situações estamos realmente a escutar a outra pessoa? Estaremos a ouvir a pessoa, ou apenas a ouvir os nossos próprios pensamentos? Estaremos a ouvi-la, ou a antecipar a nossa próxima intervenção? E se, de facto, não estamos a ouvir o nosso interlocutor, como poderemos conectar-nos com ele? Ou sentir empatia? Simples! Não há conexão e a empatia não está presente! E, nessas circunstâncias, torna-se difícil conseguirmos influenciar positivamente alguém.

 

Pessoas, comunicação

 

O que não estava presente…

Assim sendo, o que faltava naquelas conversas? Talvez o que não estivesse presente naquelas duas conversas fossem:

  • Bons ouvintes: Embora a Cristina estivesse a escutar a Mariana e o Luís tenha aparentemente ouvido o Miguel, talvez nem Cristina, nem o Miguel estivessem de fato a dar atenção os seus interlocutores!
  • Empatia: Talvez a Cristina não estivesse conectada com os sentimentos da filha. Na verdade, comparados com os problemas do mundo poderiam ser facilmente considerados ninharias! Do mesmo modo, talvez o Luís não tenha tentado colocar-se na pele do Miguel. Talvez nem a Cristina, nem o Luís tenha percebido a tristeza da Mariana e do Miguel.
  • Influência positiva: Talvez nem o Luís, nem a Cristina tenha tido qualquer influência positiva sobre o Miguel e a pequena Mariana, respectivamente!

E agora que chegou até aqui, é possível que esteja a pensar sobre o que fará de alguém um bom ouvinte. O que pode fazer de nós bons ouvintes? Como é que os outros sabem ou sentem que estão a ser ouvidos? Que impacto temos sobre os outros quando sabemos ouvir?

 

Saber ouvir! Como torna-se um bom ouvinte…

Os bons ouvintes desenvolvem três ações fundamentais:

  • A primeira delas é que, como têm a intenção de ouvir, os bons ouvintes fazem uma coisa bastante simples que é ouvir. – Ouvir sem interromper.
  • A segunda coisa que fazem é estabelecer conexão com a outra pessoa, mostrando que estão a ouvi-la. Como? Validando o que o outro diz (o que é diferente de concordar) e, por isso, repetem algumas expressões e frases que o interlocutor usou. Ou seja, o que fazem é Parafrasear!
  • A terceira característica é que bons ouvintes normalmente querem ter a certeza que perceberam o que a outra pessoa quis dizer ou está a sentir. E, por isso, colocam questões intencionadas. Isto é, Fazem perguntas com uma intenção!

 

A empatia…

A empatia é a habilidade de nos colocarmos no lugar do outro, imaginando o que a outra pessoa está a sentir. E, mais do que isso, é a vontade de a ajudar a sair do seu problema. Por isso, trata-se de vestirmos a pele do outro, aceitarmos o seu estado e conectarmo-nos com a sua vulnerabilidade.

 

Como influenciar positivamente….

Talvez seja fácil perceber agora que, é difícil conseguimos influenciar positivamente uma pessoa quando lhe estamos a demonstrar que não estamos muito interessados no que ela nos vai dizer. Ou que não respeitamos o seu ponto de vista. Ou que não somos sensíveis ao modo como se sente. Ou desvalorizamos a situação que nos está a descrever.

Dessa forma, quando negamos a dificuldade que o outro vê, ou desvalorizamos o que está a sentir, a tendência da outra pessoa será fechar-se à nossa influência. Certamente, será fácil perceber agora que todos nós tendemos a reagir dessa forma quando sentimos que não estamos a ser compreendidos ou respeitados, não é?

É por isso que, começar por dizer a uma pessoa que, o que ela acha “complicado”, só o é para ela ou não tem importância, pode ser uma forma bastante eficaz de quebrar qualquer possibilidade de entendimento com alguém!

Assim, quando agimos como bons ouvintes, quando demonstramos empatia e temos a intenção de ajudar o outro, tendemos a conectar-nos com a sua vulnerabilidade. E, nesse caso, estamos no bom caminho para podermos exercer uma influência positiva.

E se, muitas vezes, dá por si a dizer que ninguém o ouve, talvez valha a pena questionar-se sobre quem não está a ouvir quem.

Decerto, é importante que, em cada momento, possamos ganhar uma maior autoconsciência das nossas emoções e dos nossos comportamentos. Pois, dessa forma, podemos experimentar uma maior congruência com as nossas intenções e ganhar uma maior capacidade de influência positiva.

 

Texto | Té Monteiro

Fotografias | Foundry Co

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