Observação ou Julgamento? Costumas confundi-los?

by | Atualizado 20 Feb, 2021 | Publicado 24 Jul, 2019

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Quantas e quantas vezes, nos perdemos em pensamentos que estabelecem comparações entre coisas, entre pessoas, entre nós e os outros. E quantas dessas vezes dizemos que estamos a observar? Será isso observação?

Nesses momentos, estaremos de facto a observar? Ou a fazer um julgamento da coisa, do outro… de nós próprios? E esses pensamentos, será que reflectem uma observação? Ou, em vez disso, expressam somente a forma como nos sentimos em relação àquilo que cada coisa e cada pessoa nos parece ser?

E a forma como nos sentimos, será a consequência do que cada coisa é? Ou o que sentimos é apenas o reflexo da imagem que temos de nós próprios e do estado emocional em que nos encontramos naquele momento?

As características de cada coisa existem de modo independente da nossa perceção. Quer sejam, ou não, alvo dos nossos pensamentos, elas estão lá. Existem, independentemente da consciência que temos de delas, ou de nós mesmos. E pensando nisso agora, o que é observar, afinal?

 

O que é observar?

Quando nos despojarmos dos filtros pelos quais habitualmente julgamos o mundo, nos despirmos de nós mesmos e pudermos, agora, aceder simplesmente aos nossos sentidos – visão, audição, olfato, paladar, cinestesia – saberemos o que é a observação.

E entendendo agora a um nível mais profundo que, a alegria da vida pode estar em coisas tão simples como ver que uma pedra é uma pedra ou que as árvores são verdes e balouçam ao vento, poderemos perceber que, observar tudo isso é, em si mesmo, um privilégio.

Quando aceitarmos que cada coisa é o que é – não necessariamente boa ou má, feia ou bonita, melhor ou pior – sendo apenas que é o que é, e não o que não é, acederemos também à possibilidade de nos aceitarmos e de gostarmos verdadeiramente de nós próprios.

Aceita-te, ama-te e, alterando o teu comportamento de forma a obteres os resultados que desejas, descobre a melhor versão de ti próprio.

 

O quê? Valho mais que uma flor

 

O quê? Valho mais que uma flor
Porque ela não sabe que tem cor e eu sei,
Porque ela não sabe que tem perfume e eu sei,
Porque ela não tem consciência de mim e eu tenho consciência dela?
Mas o que tem uma coisa com a outra
Para que seja superior ou inferior a ela?
Sim tenho consciência da planta e ela não a tem de mim.
Mas se a forma da consciência é ter consciência, que há nisso?
A planta, se falasse, podia dizer-me: E o teu perfume?
Podia dizer-me: Tu tens consciência porque ter consciência é uma qualidade humana
E só não tenho uma porque sou flor senão seria homem.
Tenho perfume e tu não tens, porque sou flor…

Mas para que me comparo com uma flor, se eu sou eu
E a flor é a flor?

Ah, não comparemos coisa nenhuma, olhemos.
Deixemos análises, metáforas, símiles.
Comparar uma coisa com outra é esquecer essa coisa.
Nenhuma coisa lembra outra se repararmos para ela.
Cada coisa só lembra o que é
E só é o que nada mais é.
Separa-a de todas as outras o facto de que é ela.
(Tudo é nada sem outra coisa que não é).

 

ALBERTO CAEIRO

 

Texto e Fotografia | Té Monteiro

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