Há muitos anos, quando ainda era criança, a caminho da escola era hábito cruzar-me no autocarro com uma senhora que costumava contar diariamente as histórias dos milagres da sua vida. A senhora acreditava que estes eram o resultado da sua inabalável fé em Deus.

 

As histórias da senhora no autocarro…

Uma das vezes, lembro-me de a senhora ter contado como tinha sido um milagre não ter perdido o transporte para o emprego naquele dia. Tinha-se atrasado nessa manhã, devido a um imprevisto (não me recordo o quê). Mas, ela sabia que tinha sido um milagre a seu favor, o facto do autocarro também ter chegado tarde à sua paragem. Ela não podia faltar ao trabalho!

De uma outra vez, contou a história de como quase tinha queimado o jantar dos senhores para quem trabalhava. Tinha, por lapso, deixado o fogão aceso, quando saiu de casa para ir buscar a menina à escola – a filha dos patrões. E, ainda por cima, os senhores tinham visitas para jantar nessa noite! No entanto, no caminho, algo a fez voltar para trás. Tinha-se esquecido da carteira! O que, apesar de ter chegado atrasada ao colégio, lhe deu a oportunidade de se aperceber que tinha deixado o fogão aceso. Tinha sido um milagre! A carteira tinha sido o sinal!

A senhora não hesitava em contar e descrever os milagres simples que lhe aconteciam no seu dia-a-dia. Contava-o ao motorista do autocarro ou a um passageiro que se aproximasse. E, não se cansava de dizer, o quanto estava grata por isso. Nos dias mais desafiantes, a senhora costumava dizer que, esse dia, era apenas um teste à sua fé e que, acreditava que no dia seguinte tudo se remediaria.

 

Quando eu era criança…

Naquele tempo, eu – do alto da minha infantil sabedoria – pensava para mim que, aquela senhora era mesmo “Tam Tam”. Pois, toda a gente sabia que os milagres não existiam. E, também toda a gente sabia que, perder o autocarro ou queimar o jantar não eram coisas tão graves que merecessem um milagre verdadeiro. Milagre!? Aquilo era mas é esquecimento e sorte! E a prova mais sublime de que, aquilo que eu pensava estava certo, eram as expressões e comentários de alguns adultos, quando a senhora saía do autocarro.

 

Curioso…

Não sei se o que a senhora contava eram milagres! E a minha intenção, aqui, não é discutir o que é um milagre. A minha intenção é refletir sobre a nossa capacidade de atribuir significados às situações que nos acontecem nas nossas vidas. O meu propósito é levá-lo a descobrir agora como é que, aquilo em que acreditamos, pode determinar a forma como encaramos os nossos desafios e o modo com estamos e agimos perante eles.

Curioso que, algumas pessoas sejam tão gratas por tão pouco! Enquanto outras pareçam demonstrar tão pouco agradecimento pelo tanto que têm! Curioso que, existam pessoas que encontram milagres em simples eventos do seu dia. Enquanto outras não acreditam de todo em milagres! Ou acham que estes têm de ser tão poderosos e magnânimos que jamais poderão estar reservados para si mesmas.

Curioso que, algumas pessoas encontrem felicidade em coisas, tão simples, como acordarem numa cama quente. Ou, em não ter uma razão especifica para se sentirem infelizes. Interessante que, outras pessoas se desgastem num mar de infelicidade, por sentirem que não têm uma razão particular e determinada para se estarem felizes!

 

Hoje percebo a magia dos milagres…

Hoje, quando recordo a senhora do autocarro, tenho uma perspetiva diferente daquele tempo de criança. Continuo sem saber se se podem chamar milagres de verdade às histórias que a senhora contava no autocarro. Porém, talvez o verdadeiro milagre fosse a forma como ela olhava as peripécias por que passava. No seu intimo, talvez aquela senhora tivesse uma magia que lhe dava a capacidade de escolher um significado positivo para desafios do seu dia-a-dia. E, talvez fosse essa magia, que lhe dava a força anímica para ultrapassar, não só as trapalhadas em que se metia por distração ou desorganização. Mas, sobretudo, para superar com alguma alegria as dificuldades inerentes à vida de uma mulher pobre que já tinha criado 3 filhos sozinha, um deles doente com quem ainda vivia.

Pensando na senhora daquele autocarro, talvez perceba agora que nos muitos transportes das nossas vidas, muitas historias podem ser contadas ou, pelo menos, sentidas de forma diferente por cada pessoa. E a forma como sentimos importa! O que fazemos com o que sentimos importa! Os resultados que obtemos com o que fazemos importam!

 

Uma outra perspectiva da história…

Convido-o agora a imaginar uma história um pouco diferente! E se a aquela senhora, afinal, fosse de comboio para o trabalho? E, se ao invés de acreditar em milagres, contasse as suas histórias da perspetiva de quem vê e lamenta os seus azares? Já viu a pouca sorte? Ia deixando queimar o jantar dos patrões, arriscada a ser despedida, por causa das visitas! E logo de seguida quando ia buscar a miúda teve de voltar para traz por causa da carteira, o que a fez ir a correr para não se atrasar! Já reparou que nada bateu certo? E o stress desse dia? Parece de propósito! Já não bastavam todos os infortúnios da sua vida pessoal?!

Pensando nisso agora, que diferenças existem entre o autocarro e o comboio? Observe como os factos são os mesmos, as personagens são semelhantes. Afinal, onde está a diferença? Talvez a única diferença esteja no facto da senhora do autocarro descobrir milagres, onde a senhora do comboio encontra azares!

 

O poder mágico de quem escolhe ver milagres…

Hoje, reconheço um poder mágico na senhora do autocarro da minha infância! É o poder de quem consegue erguer-se quando cai, é o poder de quem busca um significado positivo na adversidade, é a mágica fonte interior do ânimo e da motivação! E, ao longo da minha vida, também tenho encontrado senhoras e senhores das que andam de comboio. E o seu poder é diferente…

Que possamos escolher encontrar agora, dentro de nós, a magia que nos pode transportar para o universo de uma mente mais positiva.

Queimaste o jantar? Ótimo, isso significa que havia o que jantar, e que podes agora aprender algo com o que aconteceu! E lembra-te, sorri para a vida, para que a vida te possa sorrir de volta!

E afinal, talvez os milagres estejam disponíveis em muitos dias das nossas vidas! Muitas vezes, a oportunidade está lá. Porém, quando não acreditamos nela, escolhemos o caminho de desistir antes de desenvolver qualquer ação! Assim, aquilo em que acreditas pode fazer-te abrir ou fechar portas no teu caminho. A questão não está em acreditar, mas naquilo em que acreditas!

 

Texto | Té Monteiro

Fotografia | David Mark

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